Festival acontece após TCE-AM determinar investigação sobre despesas da edição de 2025 e cobrar transparência nos contratos
Enquanto moradores enfrentam buracos, falhas na coleta de lixo e problemas de drenagem em diferentes zonas da capital, a Prefeitura de Manaus destinou R$ 15 milhões dos cofres municipais para a estrutura do Sou Manaus Passo a Paço 2026.
O festival começou no dia 4 e segue até 13 de setembro, com dez dias de programação no Centro Histórico. A administração municipal afirma que reduziu em R$ 10 milhões a previsão original de recursos públicos e que patrocinadores privados pagarão os cachês das atrações nacionais.
Mesmo com a redução anunciada, o valor destinado ao evento reacende o debate sobre as prioridades da gestão municipal diante dos problemas de infraestrutura enfrentados diariamente pela população.
Gastos aumentaram mais de 1.100%
A discussão ganha ainda mais peso porque as despesas do Sou Manaus já estão sob análise dos órgãos de controle.
Em maio, o Tribunal de Contas do Estado do Amazonas determinou a instauração de uma Tomada de Contas Especial para examinar a regularidade, a legitimidade e a economicidade dos gastos realizados na edição de 2025.
Segundo o Ministério Público de Contas, as despesas do festival passaram de aproximadamente R$ 2 milhões, em 2022, para mais de R$ 25 milhões, em 2025. O crescimento foi superior a 1.100% em três anos.
O TCE-AM não declarou que todo o dinheiro foi usado irregularmente. O Tribunal reconheceu que o crescimento do evento poderia justificar parte da elevação, mas concluiu que faltaram explicações técnicas suficientes sobre a composição dos preços e a vantagem econômica das contratações.
Falta de transparência
O Tribunal também identificou falhas na divulgação de contratos, empenhos, ordens de pagamento, notas fiscais e valores individualizados destinados a artistas, fornecedores e intermediários.
Por determinação do TCE-AM, a Manauscult deverá disponibilizar uma área específica com a documentação financeira completa do festival.
A Tomada de Contas Especial deverá verificar se os gastos foram compatíveis com os preços de mercado e se houve eventual prejuízo aos cofres públicos.
Problemas continuam nos bairros
Enquanto o Centro Histórico recebe palcos e estruturas temporárias, bairros de Manaus convivem com problemas básicos ainda sem solução definitiva.
A própria prefeitura reconheceu, ao lançar operações de tapa-buracos, que as chuvas provocaram grandes transtornos e abriram crateras em diferentes pontos da cidade. As ações emergenciais confirmam a existência de uma extensa demanda por recuperação viária.
Na coleta de lixo, o TCE-AM julgou procedente uma representação do Ministério Público de Contas que apontou atrasos, acúmulo de resíduos e descarte irregular no conjunto Águas Claras, no Novo Aleixo.
O Tribunal também identificou deficiência na fiscalização do contrato e determinou a realização de uma nova licitação para o serviço. O processo foi encaminhado ao Ministério Público Estadual para avaliação de possíveis responsabilidades.
Drenagem expõe fragilidade
Os problemas de drenagem também permanecem visíveis. Em maio, cinco caixas coletoras ficaram completamente obstruídas no Centro, exigindo uma força-tarefa para recuperar o escoamento das águas.
A administração municipal atribui parte dos alagamentos ao descarte irregular de lixo. Entretanto, a repetição das ocorrências também evidencia a necessidade de manutenção contínua, fiscalização e investimentos estruturais.
Cultura ou serviços básicos?
Eventos culturais movimentam artistas, vendedores, trabalhadores e estabelecimentos comerciais. A Prefeitura de Manaus estima que o Sou Manaus possa movimentar mais de R$ 80 milhões na economia, mas ainda não apresentou um estudo público independente que demonstre como essa projeção foi calculada e quanto desse valor permanecerá efetivamente na economia local.
A questão não é escolher entre cultura e infraestrutura. O ponto central é saber se uma cidade que encontra recursos para realizar um festival milionário está aplicando dinheiro, planejamento e fiscalização suficientes nos serviços essenciais.
Sem a divulgação integral dos contratos, patrocinadores, cachês, despesas operacionais e resultados econômicos, a população não consegue avaliar com precisão quanto o festival realmente custa nem se os benefícios apresentados compensam o investimento público.
Redação O Contendor




